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terça-feira, 1 de março de 2011

'A ganância da honra' por por Luiz Felipe Pondé para a FOLHA



Que Deus me proteja de cair na tentação da ganância da honra. Aristóteles já dizia que a honra é uma virtude pública sedutora, mas impossível para quem a busca por si mesmo.

Sobre isso, revi o grande filme de Stanley Kubrick "Glória Feita de Sangue" (1957). Outro filme que recomendo é "A Cruz de Ferro" (1977), de Sam Peckinpah.

Ambos tratam da relação entre elite (oficiais) e plebe (soldado) -Kubrick na Primeira Guerra Mundial, Exército francês nas trincheiras, Peckinpah na Segunda Guerra, força armada alemã na frente russa.

No primeiro filme, o herói, o coronel Dax (Kirk Douglas), membro da elite francesa, se vê diante de uma trama na qual três de seus soldados são condenados injustamente à corte marcial e ao fuzilamento.

São acusados de covardia quando a missão para a qual tinham sido mandados era impossível. Não foram covardes, ficaram detidos pelas condições insuperáveis da batalha.

Mas a hierarquia queria mesmo era o sangue "do gado" para animar a moral das tropas, mostrando o valor da disciplina. O desprezo do coronel Dax pela elite do Exército é evidente, apesar de ser parte dela. O general em comando apenas queria uma promoção.

Segundo o general, o "povo francês" clamava pela sua dignidade, que deveria ser honrada com o sangue dos "covardes". "Povo francês" aqui nada mais é do que a retórica da opinião pública como instrumento de pressão. Confiar no "povo francês", como em sua elite, soará ridículo neste cenário.

No segundo filme, o herói, cabo Steiner (James Coburn), vindo da plebe, ganha várias cruzes de ferro por coragem sem dar valor a nenhuma delas ("só um pedaço de metal"), enquanto um capitão de família nobre prussiana, Stransky (Maximilian Schell), um covarde oportunista, cria situações para ganhar a cruz de ferro sem correr riscos.

O desprezo do cabo Steiner pela elite é também evidente, mas não é membro dela.

Em ambos os filmes, lembramos da tese do escritor russo Tolstói (em "Guerra e Paz") sobre guerras e batalhas (que fala da vida como um todo): um caos sem ordem, sem sentido, violência gratuita, a partir do qual, após a batalha, "reconstruímos o sentido" a fim de satisfazer qualquer ponto de vista, e, assim, contarmos "a" história.

Nutro profunda simpatia por esta teoria da história de Tolstói.

Os filmes seguem cursos diferentes. De certa forma, o filme de Kubrick vai mais longe do que o de Peckinpah na crítica ao modo como o mundo se organiza (sendo a guerra e o Exército em ambos apenas o cenário ideal para demonstrar suas teses).

Enquanto em "Cruz de Ferro" a coragem tem seu lugar (a medalha, apesar de o corajoso não dar valor a ela), em "Glória Feita de Sangue" a coragem é "invisível" para a hierarquia, que trata o herói Dax como um bobo idealista.

Onde está a coragem neste caso? Está na recusa do herói Dax da promoção que receberia como forma de acomodação ao status quo.

No filme de Peckinpah, ao final, Steiner arrasta o oportunista Stransky para o campo de batalha (já arrasado pelos russos), dizendo: "Vou mostrar a você onde crescem as cruzes de ferro" (isto é, diante do inimigo).

Já no filme de Kubrick não há espaço para essa ode última à coragem nas guerras, mas sim algo mais sutil: Dax, observando seus soldados à distância, quando urram num bar diante de uma "cantora" alemã (prisioneira de guerra), percebe como, de uma horda de bárbaros, eles passam à condição de homens tocados pela fragilidade da moça e pela beleza da música que ela canta, em meio às suas lágrimas de medo. Um dos maiores momentos do cinema.

Em ambos, vemos a ruína da ordem do mundo e seus mecanismos de produção da honra (representados pela hierarquia do Exército e seus sistemas oficiais de reconhecimento da coragem e da covardia).

Neste campo devastado, sobra a coragem de um homem solitário (Steiner) e a capacidade de um idealista aristocrático (Dax) de perceber um instante efêmero no qual feras se tornam homens. Ambos impermeáveis à ganância das honras.

Pouco importa a classe social -o que conta, ao final, é a virtude de cada um como modo de ação num mundo sem honra.

Publicado no Paulopes WebBlog. O artigo foi feito para a FOLHA DE SÃO PAULO. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

“Gay e muçulmano? Como assim?”


Essa é a pergunta mais ouvida por Adnan Ali, um paquistanês que mora no Rio e luta por uma difícil causa: a aceitação de homossexuais pelo islã.
Num colégio interno de Lahore, no Paquistão, o menino sunita Adnan Ali, então com 13 anos, mal podia esperar pelas orações do fim da tarde. Na mais importante prece do dia, estudantes das duas correntes do islã – sunitas e xiitas – se reuniam. Era a oportunidade que ele tinha de ver Jamal, um jovem xiita de 15 anos que estudava em outro pavilhão, destinado aos alunos mais velhos. Durante as preces, os dois cruzavam a linha que os separava para orar lado a lado – os sunitas, maioria, rezavam à frente da mesquita, e os xiitas ficavam na parte de trás. De vez em quando, enquanto faziam os movimentos em respeito a Alá, suas mãos se tocavam, em um ritual que se repetia todos os dias.

André Arruda
Disponível na Web
Jamal foi o primeiro namorado de Adnan Ali, hoje com 37 anos. Mas Adnan diz que sua homossexualidade aflorou quando ainda era criança. Mesmo sem entender direito, achava os homens dos filmes indianos de Bollywood mais interessantes que as mulheres. “Sabia que, de algum jeito, queria estar perto deles”, diz. Vivendo hoje no Rio de Janeiro com seu parceiro, um inglês da ONG Médicos Sem Fronteiras, Adnan é um dos principais ativistas no mundo de uma causa aparentemente impossível: a aceitação de homossexuais na comunidade islâmica.

O desafio de Adnan começou em casa. Quando era adolescente, seus pais abriram uma carta amorosa de um jovem endereçada a ele. Além de ter recebido uma surra, Adnan teve de prometer que jamais falaria com o remetente. Ele diz se lembrar de um vizinho arrastado por policiais para fora de casa depois de ser flagrado num ato sexual com outro homem. Adnan nunca mais o viu. “Geralmente não se sobrevive à punição”, afirma. No Paquistão, onde a lei islâmica tem forte influência sobre a legislação civil, a homossexualidade ainda pode ser punida com a pena capital.

A família de Adnan só tolerava sua condição porque era praticamente sustentada pelo dinheiro de seu trabalho, principalmente enquanto esteve empregado na área de reservas do hotel Marriott de Islamabad, capital paquistanesa. “Isso me dava um passe livre para fazer o que quisesse. De certa forma, comprei a aceitação de meus pais.” Em 1996, ele ganhou uma bolsa para estudar produção teatral na Inglaterra e foi embora. Três anos depois, já integrado à pequena comunidade de gays assumidos de origem muçulmana no Reino Unido, Adnan fundou a representação britânica da ONG americana Al-Fatiha, destinada a auxiliar essa minoria no mundo islâmico – Al-Fatiha, que significa “a abertura” em árabe, é o nome do primeiro capítulo do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. O trabalho de Adnan virou tema de um documentário da rede de TV britânica Channel 4, em 2006. A aparição no programa lhe rendeu umafatwa (sentença) de líderes religiosos islâmicos, condenando-o à morte – a mesma decisão aplicada nos anos 90 ao escritor indiano Salman Rushdie por sua obra Versos satânicos. Mas Adnan diz não temer a sentença: “Não significa absolutamente nada para mim. Continuo a viver minha vida normal e a mostrar meu rosto”.

O Alcorão chama de “um povo de insensatos” os homens 
que se aproximam de outros homens

Adnan reconhece a dificuldade de sua luta. Afirma que nem mesmo a comunidade gay sabe lidar muito bem com seus integrantes do islã. “A reação costuma ser: ‘Gay e muçulmano, como assim?’.” Dentro do islamismo, aceitar gays seria o mesmo que reescrever o Alcorão, na visão das autoridades religiosas. “Tudo o que Deus criou foi em forma de casal. Homem, animais e até plantas. Nada do mesmo sexo produz frutos”, afirma o xeque xiita Ali Abou Raya, imame (sacerdote) da Mesquita Mohammad Mensageiro de Deus, em São Paulo. “É preciso deixar claro que o homossexualismo nunca será liberado na jurisprudência islâmica. A orientação é direta e clara.”

Abou Raya cita duas passagens do Alcorão para justificar sua posição. Ambas descrevem o que teria acontecido aos habitantes de Sodoma e Gomorra. Na sura (capítulo) 27, versículo 55, o livro sagrado faz referência a homens que se aproximam de outros homens e os chama de “um povo de insensatos”. O outro trecho é a sura 11, versículo 78, no qual o profeta Lot pede a seu povo, “que desde antanho havia cometido obscenidades”, que tema a Deus. Para Abou Raya, é um recado aos gays. “O profeta os adverte a não cometer essas relações”, diz. Militantes gays como Adnan argumentam que as passagens referem-se a atos de sodomia e de estupro praticados entre pessoas do mesmo sexo, e não a relações homossexuais consensuais, entre dois adultos.

Para a religião islâmica, a homossexualidade é vista como algo reversível, ou seja, um pecado do qual é possível se redimir. “Se um muçulmano homossexual acredita que sua condição seja natural, ele deixa de fazer parte do islamismo. Mas se ele reconhece que está passando por uma dificuldade, um problema psicológico, então passa a ser um pecador que deve receber ajuda de sua comunidade religiosa”, afirma o xeque sunita Jihad Hassan Hammadeh, presidente do Conselho de Ética da União Nacional das Entidades Islâmicas. Hammadeh afirma que o islamismo condena o preconceito, mas reconhece que nem sempre “algumas pessoas” dentro do mundo islâmico agem de forma tolerante. Basta recordar uma declaração do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao discursar em 2007 para alunos da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos. Respondendo à pergunta de um estudante sobre como gays eram tratados no Irã, disse: “Lá não há gays como em seu país; não temos esse fenômeno”.

No Rio de Janeiro, há pouco menos de um ano, Adnan ainda está conhecendo o universo GLS da cidade. Diz estar com vontade de ir a um bar gay na Gávea e conheceu alguns ativistas durante um seminário anti-homofobia. “Não vou muito à praia, embora goste de sentar na areia e ler um livro. Já fui ao Posto 9 (em Ipanema) muitas vezes, e é legal ver as bandeiras com o símbolo gay (arco-íris) tremulando”, afirma. Como no Brasil a comunidade muçulmana é pequena, ele dá apoio a gays brasileiros de qualquer credo, por meio de um círculo de amigos na internet. Assim conheceu um jovem baiano que, ao se descobrir gay, passou a pensar em suicídio. “Eu tenho conversado com ele para fazê-lo desistir da ideia. Gosto de pensar que continuo útil pela minha causa.” 

A matéria é da Revista Época. aUTORES: FERNANDO SCHELLER COM JULIANO MACHADO



domingo, 6 de fevereiro de 2011

'Igreja Contemporânea'. Conheça a história da igreja evangélica fundada por um casal gay!


A IGREJA CRISTÃ CONTEMPORÂNEA foi fundada no Rio de Janeiro em 10/09/2006. É uma denominação inclusiva, que prega o livre acesso a todas as pessoas ao Evangelho de Jesus Cristo. Possui destaque por aceitar as pessoas, independentemente da orientação sexual.
A história da igreja se confunde com a do seu fundador, o Pastor Marcos Gladstone, que se converteu ao Evangelho de Jesus aos 14 anos de idade, cresceu na fé na Igreja Evangélica Congregacional, foi noivo por quatro anos e prestes a se casar, estando ao lado da sua noiva numa igreja pentecostal no subúrbio do Rio de Janeiro em 1998, recebeu duas profecias de duas senhoras diferentes, mas de mesmo conteúdo, que em suma, seria que o mesmo receberia uma grande revelação sobre a sua vida nos Estados Unidos, em janeiro de 1999, em San Francisco, Califórnia, EUA. O Senhor Jesus revelou que sua orientação sexual era algo que jamais poderia mudar ou fugir daquilo que era e foi constituído por Deus para ser. Retornando ao Brasil, termina seu noivado e se afasta da igreja por não aceitar homossexuais.
Distanciado da igreja, o mesmo não se conformava em ter a aceitação de Deus e não existir um local de adoração que permitisse a adoração a Deus na forma como era. Em 2002, soube através de um pastor amigo seu, que lhe confessou ser homossexual, sobre uma denominação americana que recebia gays.
Em 2003, passa um período de muita dor familiar com o falecimento da avó no ano anterior e uma doença grave que atingia a coluna da sua mãe, onde depois de ter feito vários tratamentos e exames, já caminhando com moletas, sua mãe visita uma pastora que possui ministério de cura. No primeiro dia que sua mãe chegou àquele local, recebe a revelação que seria curada, sem qualquer intervenção cirúrgica médica e que o mesmo Jesus que a curaria era o mesmo que tinha chamado o seu filho para usá-lo para um ministério que mudaria a vida de milhares de pessoas que foram lançadas para fora do reino de Deus. Um chamado que revolucionaria o Brasil e o mundo!
No mesmo ano de 2003, sua mãe foi milagrosamente curada e Marcos Gladstone foi consagrado pastor interino. De uma reunião realizada a céu aberto com três pessoas (o Pastor Marcos e mais dois jovens) nas areias da praia de Ipanema, no ano seguinte, em 2004, abrem o primeiro templo daquela igreja norte-americana no Brasil. Um mês antes da inauguração, a mesma pastora que profetizou sobre o seu ministério agora o informou que Deus a tinha revelado que aquele ainda não era o ministério que Deus o usaria e que em breve haveria um desligamento do pastor do ministério norte-americano. E, assim foi, muita mídia, muita divulgação, semelhante a uma explosão de refrigerante, foi balançado saiu com toda pressão, mas rapidamente acabou o gás e ficou insosso. Em 2005, o pastor Gladstone saiu oficialmente do ministério norte-americano.
Em 2006, quando tudo parecia um sonho frustrado, um novo direcionamento do Espírito Santo faz nascer a Igreja Cristã Contemporânea, 20 pessoas, num terceiro andar de um sobrado na Lapa, que não imaginavam que pouco tempo depois este povo se tornaria uma grande nação.

A Palavra de Deus diz: “Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai, porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá quem o levante. Também, se dois dormirem juntos, eles se aquentarão; mas um só como se aquentará? Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe resistirão; o cordão de três dobras não se quebra tão depressa.” (Eclesiastes 4, 9-12).
“Melhor é serem dois”... na verdade, para que o Senhor pudesse estabelecer o ministério contemporâneo, uma peça fundamental ainda faltava na vida do seu fundador - o companheiro, o pastor Fábio Inácio, carioca, que outrora havia sido pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, tendo se afastado desta por causa da  homossexualidade.
Note que a Igreja Cristã Contemporânea foi fundada em 10/09/06, e dois dias antes (08/09/06) iniciou-se este grande amor na história do evangelho de inclusão no Brasil.
A Igreja Cristã Contemporânea foi erguida em cima do amor deste casal, para levar o amor de Deus a todos sem preconceitos. Agora a obra estava completa para o Espírito Santo se manifestar, agora estavam juntas as três dobras do cordão do Senhor (pastor Marcos Gladstone, pastor Fábio Inácio e o Senhor Jesus).
Classificada como neopentecostal, a igreja rege-se pelo regime episcopal ou como chamado habitualmente regime apostólico.
A visão é a de ser um ministério profético, inspirado na Palavra de Deus para levantar uma raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtudes daquele que chamou uma nação das trevas par da a sua maravilhosa luz, um povo que antes não era povo, mas agora é povo de Deus; que não tinha alcançado misericórdia, mas agora alcançou misericórdia.” (1Pedro 2, 9-10). Para levar Cura, Amor e a Palavra de Deus para muitas pessoas que estavam sem um abrigo espiritual.
Levando o amor de Deus a todos sem preconceitos!

A matéria é do próprio site da Igreja Contemporânea. 


Comentário:

A ideia de ter uma igreja que não condena a homossexualidade, por não considerá-la um pecado, é boa. Há muitos homossexuais que não se sentem dignos do amor de Deus. Muitos que, mesmo considerando de fundamental importância a religiosidade, se sentem excluídos de suas congregações. A Igreja Contemporânea é uma alternativa para aqueles homossexuais que veem necessidade de um local de adoração e fé. 

Daniel Lélis  

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Religião: Seja lá qual for a sua posição, siga com respeito.


Imagem da Internet
A religião é uma questão que gera conflitos desde a construção da racionalidade humana, como pode ser visto em praticamente todos os registros históricos. A diversidade de crenças e costumes que vem acompanhada desse importante componente da sociedade é admirável e de suma importância para a humanidade, mas ao mesmo tempo em que vemos a beleza de uma cultura variada, vemos também as vergonhosas guerras que acontecem exatamente pelo fato da diversidade religiosa.
Muitas religiões (se não todas) prezam (ou deveriam prezar) pelo respeito, mas esquecem dele na hora de criticar e desvalorizar totalmente outra religião. Por que isso acontece? O que dá o direito de uma religião ser superior à outra? São essas e outras perguntas que surgem quando paramos para analisar a situação. Situação essa que, em alguns casos, envolvem até importantes líderes religiosos, infelizmente.
Seja qual for o seu Deus, sejam quais forem os seus costumes, não pense que sua religião é melhor ou pior do que qualquer outra e muito menos ache que você está no direito de criticar alguma religião. A verdade é que religião é algo que não se discute, cada um é livre para escolher a que quiser e é livre até mesmo para escolher não possuir uma religião. Viva sua religião sem atingir a do próximo, busque uma troca de experiência, se informe mais sobre outras culturas e crenças antes de criticá-las; isso sim deveria ser o certo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Existem 'ex-gays'?! Ex-líder de grupo religioso que prega a 'cura' para gays diz que não e pede desculpas


Não, não existem ex-gays. O que existem são homossexuais que preferem, por razões das mais diversas, não mais vivenciar a sua sexualidade. Ninguém escolhe ser ou não gay; mas pode-se escolher expressar ou não as preferências sexuais/afetivas. Os 'ex-gays' marginalizam os seus sentimentos, optando pela mentira e pelo fingimento. Continuam homossexuais, muito embora se neguem a ver dessa maneira. 


Abaixo tem uma matéria feita pelo site Mix Brasil a respeito dessa suposta possibilidade de deixar de ser homossexual. Logo após, o PALAVRAS SOPRADAS traz o depoimento de Michael Bussee, ex-líder do grupo religioso Exodus, que prega a 'cura' da homossexualidade. Sua coragem é inspiradora. Seu testemunho de vida, engrandecedor. Acompanhe.

Daniel Lélis


QUEM SÃO OS EX-EX-GAYS?

Disponível na Web


Ex-ex-gay é um termo utilizado para denominar aquelas pessoas que, por algum tempo diziam ter conseguido a cura para sua homossexualidade através deterapias religiosas ou de outro tipo, quando se autodenominam ex-gays, mas que, numa terceira etapa, voltam novamente a assumir sua a homossexualidade, quer de forma volutária ou após revelações feitas por terceiros.
O cidadão estado-unidense Wayne Besen, que passou oito anos ocupando um cargo de liderança na organização de ex-gays, Exodus International, é um dos mais notáveis exemplos de uma pessoa ex-ex-gay.
Alan Chambers, antigo porta-voz da Exodus também veio recentemente a público afirmar que as práticas
 da organização não funcionam, tal como já tinha feito anteriormente o fundador da Exodus, Michael Bussee.
Tais terapias geralmente são oferecidas por organizações cristãs protestantes e são apresentadas não como terapia propriamente dita, mas como conselho religioso. No entanto, são consideradas ilegítimas pelos órgãos profissionais de saúde mental do Brasil, dos Estados Unidos, e de vários outros países ocidentais.
O terapeuta e professor de psicologia clínica da Universidade da Basiléia, naSuíça, Udo Rauchfleisch, afirma que a verdadeira orientação sexual da pessoa, com seus sentimentos entrelaçados, com suas fantasias eróticas e sexuais, assim como com suas preferências sociais, não permitem modificação.
Ao mesmo tempo, existe uma variedade de organizações religiosas minoritárias pertencentes ao cristianismo que praticam uma aceitação plena de pessoas homossexuais, lésbicas, bissexuais e trans em seu meio, onde a sua orientação sexual e identidade de género é declaradamente aceita e é celebrada como uma dádiva divina e onde são celebradas uniões de pessoas do mesmo sexo.


Matéria do Mix Brasil.

Depoimento de Michael Bussee, ex-líder do Exudus


Meu nome é Michael Bussee. Eu quero agradecer a você por esta oportunidade de contar minha história. Trinta anos atrás, eu ajudei a criar a EXODUS International. Hoje, eu estou aqui para me desculpar; Hoje eu sou um terapeuta conjugal e familiar, um pai, um cristão evangélico, nascido de novo — e orgulhoso de ser gay. Mas trinta anos atrás, eu não era tão orgulhoso.

De fato, eu cresci odiando meus sentimentos gays. Eu passei por xingamentos, bullying e surras. Por que motivo as outras crianças pareciam odiar-me tanto? Eu não escolhi ter esses sentimentos e queria me livrar deles. Eu queria mais do que tudo ser “normal,” adequar-me — apaixonar-me, assentar-me, ter filhos. Eu queria desesperadamente ser heterossexual. Mas como?

Com aproximadamente 12 anos, eu comecei uma busca pessoal por uma “cura” para homossexualidade. Eu tomei a decisão de embarcar no meu próprio êxodo privado — para encontrar a saída para a homossexualidade. Minha busca levou-me a Deus. Como estudante do ensino médio, eu aceitei Jesus como meu Senhor e Salvador pessoal. Essa decisão mudou a minha vida pra sempre e eu continuo sendo um evangélico comprometido até hoje.

Então, em 1974, eu encontrei o Centro Cristão Melodyland (Melodyland Christian Center) em Anaheim e comecei a trabalhar como um de seus conselheiros voluntários via telefone. De começo, eu não disse a nada sobre meus sentimentos gays a ninguém. Afinal, eu tinha que me “purificar.” Eu disse ao diretor do aconselhamento telefônico que eu era um “cristão homossexual.” Ele me disse que “não havia tal coisa.” Ele disse que se eu era um cristão de fato, então “já não era mais gay aos olhos de Deus,”

Eu precisava acreditar que era heterossexual agora – e “determinar isso.” Deus faria o milagre com o tempo. “Continue orando” - diziam eles. Se eu tivesse fé suficiente, eu finalmente “ficaria livre.” Eu queria isso mais do que tudo e sinceramente acreditei que isso se tornaria verdade.

Naquele tempo, não havia ministério para gays em nossa mega igreja, então meu amigo Jim Kaspar e eu decidimos inventar um. Em 1975, nós criamos a EXIT - em inglês a palavra significa saída, mas aqui era uma sigla para “EX-gay Intervention Team,” ou seja, Equipe de Intervenção Ex-Gay (uma espécie de Caça-Fantasmas – só que gay!) Começamos oferecendo sessões de aconselhamento individual, grupos de apoio semanal, estudos bíblicos, e reuniões de oração. Apesar de não termos nenhum treinamento formal, e só termos nos intitulado “ex-gays” havia poucos meses, tornamo-nos, de repente, “especialistas.”

Pastores e terapeutas começaram a enviar clientes para nós. Escrevíamos materiais sobre “Como Ajudar o Homossexual” e dávamos “testemunhos de nossa mudança” em conferências da igreja e em talk shows no rádio e na TV – incluindo o Club 700 do Pat Robertson. Robertson insistia em perguntar se nós achávamos que havíamos tido “demônios gays” algum dia. Ele pareceu desapontado quando respondemos que “não.”

Em 1976, descobrimos que outros como nós estavam formando pequenos ministérios de “mudança” ou “libertação” em suas áreas. Em setembro de 1976, no Melodyland Christian Center em Anaheim, o EXIT recebeu a primeira confêrencia de “ex-gays” de todos os tempos. Um punhado de líderes de ministérios junto com aproximadamente 60 delegados votaram para formar uma coalisão de ministérios. Chamamos essa coalisão de EXODUS. Pensamos que, chamados como Moisés e dirigidos por Deus, nós poderíamos conduzir muitos gays e lésbicas para a “terra prometida” da heterossexualidade.

Preciso dizer que alguns tiveram uma experiência positiva de mudança de vida frequentando nossos estudos bíblicos e grupos de apoio. Eles experimentaram o amor de Deus e o acolhimento de outros que conheciam suas lutas. Houve algumas “mudanças” reais – mas nenhuma das centenas de pessoas que nós aconselhamos se tornou heterossexual.

Ao contrário, muitos dos nossos clientes começaram a se desestruturar – afundando em culpa, ansiedade e ódio contra si mesmo. Por que eles não estavam “mudando”? As respostas dos líderes da igreja tornavam a dor ainda maior: “Você pode não ser um cristão verdadeiro.” “Você não tem fé suficiente.” “Você não está orando e lendo a Bíblia o suficiente.” “Talvez você tenha um demônio.” A mensagem sempre parecia ser: “Você não é sincero o suficiente. Você não está se esforçando o suficiente. Você não tem fé suficiente.”

Alguns simplesmente caíram fora e nunca mais se ouviu falar deles. Eu acho que esses tiveram sorte. Outros se tornaram auto-destrutivos. Um jovem se embriagou e dirigiu contra uma árvore). Um dos líderes que trabalhavam comigo me disse que havia deixado a EXODUS e estava frequentado bares heterossexuais, procurando alguém que batesse nele. Ele disse que as surras o faziam sentir-se menos culpado, fazendo expiação pelo seu pecado. Um dos meus clientes mais dedicados, Mark, pegou uma lâmina e cortou suas genitais repetidamente, e depois colocou produto limpa-ralos sobre as feridas, porque depois de meses de celibato, ele havia tido uma “queda.”

No meio de tudo isso, minha própria fé no movimento EXODUS estava desmoronando. Ninguém estava realmente se tornando “ex-gay.” A quem estávamos enganando? Como um líder atual da EXODUS admitiu, éramos apenas “cristãos com tendências homossexuais que preferiam não ter aquelas tendências.” Ao nos denominarmos como “ex-gays,” nós estávamos mentindo pra nós mesmos e para os outros. Estávamos machucando pessoas.

Em 1979, um outro pioneiro da EXODUS (Gary Cooper) e eu decidimos deixar a EXODUS — e nossas esposas. Por anos, nós dois havíamos firmemente acreditado que o processo EXODUS nos tornaria heterossexuais. Ao invés disso, percebemos que havíamos nos apaixonado um pelo outro! Saímos do armário publicamente contra a EXODUS em 1991. Nossa história apareceu no documentário “One Nation Under God” (Uma Nação Sob Deus). Gary morreu de AIDS pouco antes do filme ser concluído.

Desde então, eu continuei a ser um dos mais persistentes críticos da EXODUS – não porque eu queira “negar esperança.” Pelo contrário, eu quero afirmar que Deus ama cada pessoa, e que o amor e o perdão de Deus realmente mudam vidas. Certamente mudaram a minha. Apenas nunca me fizeram heterossexual. Eu encontrei harmonia entre minha sexualidade e minha espiritualidade — e eu tenho esperança de que outros farão o mesmo. A jornada de cada um é diferente. Meu próprio êxodo tem sido uma jornada incrível.

Perdi muitos amigos e amores para a AIDS. Já fui demitido de dois empregos apenas por ser gay. E cinco anos atrás, eu sobrevivi a um violento e absurdo crime de ódio que quase levou minha vida. Eu fui espancado e esfaqueado nas costas por membros de uma gangue que gritavam “viado”, enquanto me atacavam. Meu melhor amigo, Jeffery Owens, não teve tanta sorte. Ele foi esfaqueado cinco vezes nas costas e sangrou até a morte na mesa de cirurgia.

Apesar de tudo isso, eu me considero um sobrevivente. Eu sou um homem gay cristão evangélico feliz; relativamente bem ajustado; tenho um relacionamento amoroso comprometido com um cara maravilhoso, meu parceiro Richard; e sirvo como ancião na minha igreja presbiteriana local. Eu amo a Deus e amo a vida.

E tenho esperança. Acredito que estamos abrindo caminho; grupos como a EXODUS vão encerrar suas atividades quando as pessoas não mais pensarem que precisam renegar quem realmente são para tentarem ser o que não são.

Até lá, àquelas pessoas maravilhosas (gays, ex-gays e ex-ex-gays) que têm abençoado minha vida e enriquecido minha jornada, sou sinceramente grato. E àqueles que eu possa ter ferido através do meu envolvimento com a EXODUS, peço sinceras desculpas.

Tradução: Sergio Viula para o blog Fora do Armário.